segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Talvez andorinha.

Em Campinas há uma praça que se chama Imprensa Fluminense; julgo, contudo, mais bonito e preciso o apelido Centro de Convivência. Nas primeiras horas da manhã de uma quarta-feira, lá convivem andorinhas e mendigos. Em um domingo ensolarado como este, ela é tomada por famílias e feirantes. E por mim; que eu não me esqueça de mim, embora não seja família, nem mendigo, nem feirante. Talvez andorinha.

Que beleza têm domingos ensolarados com gente na rua. Casais, crianças, cachorros, sorvete, saxofone, senhores e senhoras entretidos com as novidades de dêcenios passados. É quase impossível errar o quadro com essas tintas. Mas a que preço? Onde estão os tristes? Talvez em casa, temendo macular de azul as cores quentes da praça. Talvez imaginem que soaria alarme ao primeiro passo que arriscassem entre os demais, e em poucos minutos restaria esvaziado o centro e a convivência, reservados ao convívio dos tristes com suas misérias. Não sei. É daquelas verdades injustas o quão obscena é a tristeza sob o sol.

Reflito que, na perspectiva desta praça, os vivos são minoria. É o que acontece quando se vive demais. Já é extinta a maior parte de quem a frequentou; as primeiras crianças aqui trazidas pelos pais já adequadamente percorreram o trajeto inteiro da existência, até não haver mais trajeto algum. Para esta praça, não sou mais do que o breve descanso antes da saudade de mim; e a saudade, ela mesma, pouco dura antes que suceda silenciosa indiferença. Não concordo inteiramente com o niilismo das praças, mas juro que faz pensar.

E penso. Penso que serei família, serei casal, serei criança, serei triste. Com alguma sorte, serei senhor de idade. Talvez até andorinha eu seja. Se Campinas não for testemunha de minha alegria, há outras praças no mundo, e o mundo mesmo é também praça; que eu não espere domingos de sol para juntar-me à multidão. Há qualquer coisa neste jardim que me sugere o absurdo da vida. Fecho os olhos e peço por um pouco de beleza.

Um são bernardo caminha despreocupado pela praça; o peso do cão deixa incontestáveis marcas na grama. Desconfio que levará um tempo antes que a grama esqueça as pegadas desse são bernardo.

sábado, 23 de julho de 2016

A frequência dos cometas.

É sábado à tarde, e tento estudar. Logo de início, contudo, fica evidente a ausência de concerto de agendas entre mim e a vizinha de baixo; é sábado à tarde, e ela tenta dar um churrasco. Apenas um de nós terá sucesso na empreitada, e não culpo quem, apesar de muito bem me querer, decidir não apostar em minhas chances. Longe de mim impedir a fortuna de amigos com sentimentalismo.

Mesmo para um churrasco de sábado à tarde, pondero comigo que o volume da conversa está excessivamente alto. Não digo que todas, mas entendo frases o suficiente para que possa completar as lacunas com suposições razoáveis e compreender, assim, o sentido geral da conversa; mais do que isso, permito-me opinar como se lá estivesse e, mesmo, julgar os demais participantes dessa comunicação remota.

Por algum tempo, concluía serem apenas garotas que compunham o resto do grupo do qual agora compulsoriamente faço parte; demorou um pouco antes que eu ouvisse o grave acanhado da voz de um segundo homem, o bastante para entender que estava em companhia de mulheres eloquentes e altivas. Aproveito a deixa do companheiro e contento-me em ouvi-las, mais do que falar; raras vezes é conselho mal dado.

Não faço objeções à maioria de minhas interlocutoras; soam-me pessoas agradáveis, decididas a bem desfrutar o dia de folga em companhia de amigas queridas e de mim, eminência parda disposta a anonimamente manter o bom espírito da conversa. Discordamos em pontos-chave de assuntos relevantes, diga-se; particularmente não acho que o fechamento de fronteiras contribua para a prevenção de atos terroristas nas Olimpíadas, por exemplo. Felizmente, nada que estremeça a solidez da relação. Há, contudo, uma entre elas que me aborrece sobremaneira.

Minha antagonista é o tipo de indivíduo que parece crer que haveria irremediável silêncio se sua própria voz parasse de soar apenas por um instante. Não apenas fala mais e mais alto do que as demais, mas evidentemente acredita que o faz pelo bem da coletividade; pensa tratar-se de martírio, quando em verdade é genocídio. Tento contemporizar com alguma autocrítica; bem sei que tendo, em presença de amigos e vinho, a empolgar-me em argumentos até que os vença ou esgote a todos ao ponto de que não possam fazer nada que não fatalmente concordar com qualquer bobagem que eu sustente. Mas se eu um dia for culpado do crime de que agora sou vítima, não hesitem em entregar-me às autoridades.

Mantinha o pensamento em semelhantes rabugices, quando a genocida do andar de baixo menciona um carbonara que faria - empurrando-me desavisado à memória de um fim de tarde que vivi, em circunstâncias tão diferentes das que hoje me circundam. Tão bem comi, tão feliz bebi; falávamos baixinho, pois as palavras se bastam quando bem faladas, e há companhias com quem mesmo o silêncio é eloquente. Curioso; basta um motivo e, de repente, saudade tem gosto de carbonara e vinho tinto.

Tão singela observação foi recebida por um criado-mudo atônito e bem intencionado; mudo, ainda assim. Quem engano? Que feio é sentir forma tão simplória de inveja; deixo as meninas com seus genocídios, bem possível que a única vítima seja eu. O som que chega à minha casa nunca desceria ao churrasco delas, por mais que eu gritasse. Há assimétrica distância entre nós, cuja medida sou eu e meus poréns. Deixo-as. Mudo-me para o quarto, respiro quatro vezes, recomeço a leitura. Haverá tardes de sábado em minha vida, não duvido. Que eu não me desespere com a platitude das segundas-feiras.

Vejam só, e não é que há voz sensata que se esconde em canto qualquer desta cabeçorra? Feliz constatação. O problema é que ela se manifesta com a frequência dos cometas. Sigamos.




domingo, 12 de junho de 2016

Ainda que despidos.

Há uma meia no canto da sala que já não sei há quanto tempo lá está. Interrogo-a da última poltrona do sofá, onde resiste nesga de sol que me abrigue do frio de junho. Bastante ciente de que a encaro, ela mantém-se imóvel, orgulhosa de seu preto acinzentado pela poeira do chão, única companhia de uma existência de outra forma solitária. Em sua indiferença, parece provocar-me; se o incomodo, por que não toma atitude, o que lhe custaria mover-me, dois gestos mais decididos e pronto, seria mais uma peça de roupa submetida à higiene descuidada da máquina de lavar. Ela sabe e eu sei, contudo, que nada farei. Há dias esse conflito se desenha, e, ainda que eu por vezes tenha estado na iminência de resolvê-lo em definitivo, sempre me ocorre motivo insuspeito para nada fazer. A verdade é que estou impotente, e aceito a derrota. Há uma meia no canto da sala bastante segura de que assim permanecerá.

Que lá permaneça, então, envolta em mesquinhos mistérios. Daqui de onde a observo, não é possível dizer se, no momento em que ali se quedou, estava limpa, ou se eu havia acabado de usá-la. Estranho e triste pensamento, o de que um dia compartilhamos o mesmo sapato, e hoje nada me recordo sobre isso. Ela, por sua vez, certamente se lembra de cada um desses momentos, e talvez o que eu entenda por indiferença seja, em verdade, mágoa pelo abandono descuidado de uma relação; quem dirá que essas coisas não ocorrem? Poderia até desculpar-me, mas a pouca sinceridade me impede. Certo é que sequer percebo se ela é meia de pé direito ou esquerdo; certo é que tampouco sei dizer se essa distinção existe, ou se é coisa que arbitramos, uma vez que as vestimos; certo é que já não mereço qualquer afeto que essa meia um dia tenha sentido por mim. Mas digo, em sua defesa, que ela parece ir muito bem, obrigada. Pra muito além de filosofices de direita ou esquerda, temos aqui, no canto da sala, uma meia plenamente realizada, que não precisa de pé nenhum pra ser inteira. Do meu posto no sofá, sorrio em silenciosa admiração.

Estimo que ela esteja nesse mesmo canto há, pelo menos, três semanas, mas bem poderiam ser três séculos. Sem esforço, consigo visualizá-la defendendo intrépida, de armas em mão, este exato local da segunda leva de bandeirantes apresadores; se não podia resolver as mazelas dos indígenas, ao menos não assistiria impassivelmente, não esta meia. Mais tarde, prosperou junto aos primeiros cafeicultores do Oeste Paulista, mas não tardou a diversificar os investimentos em atividades industriais, quando percebeu insustentável o ritmo de expansão da economia cafeeira, em admirável demonstração de prudência financeira. Apesar de admirar a personalidade esclarecida do segundo Pedro, aplaudiu cautelosamente o advento da República, por saber a ininterrupta sucessão de avanços e retrocessos que se seguiria. Hoje, do canto da minha sala, lamenta a agridoce sensação de estar certa.

Faço por bem deixar de bobagens, se o que me incomoda nessa meia, em verdade, é o que ela explica de mim; pois escancara a incontornável ignorância que cultivo sobre as coisas que me são mais próximas. Anuncio resignado o quanto desconheço sobre as circunstâncias que me envolvem, mas estão além de mim - com a esperança, inclusive, de que transpareça alguma sofisticação e ares de humildade. 

Mas é com algum desespero que recebo a lembrança de que, por mais altivo que caminhe pelos anos, por mais que ostente certeza sobre os motivos que me conduzem, neste exato momento, há parte de vida que, sem que eu perceba, me abandona. Quando, em voltas e revoltas no percurso, eu tornar a encontrá-la, empoeirada e solitária em seu pedaço de chão, não saberei nem do que um dia me serviu. Desconfiado e curioso, lá a deixarei, sem mesmo saber o que estou deixando para trás. Pois bem, assim seguimos desavisados, perdendo e encontrando as roupas que caíram pelo caminho, na esperança de chegar; ainda que despidos, chegar.