segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Acaso, fraqueza, razão.

Depois de certa quantidade de anos sobre a terra, toda informação inédita é recebida em referência às outras que já levamos conosco; elas nos transformam, mas também as fazemos nossas no processo. Até uns dezessete anos, contudo, nossa cabeça é matéria amorfa e flexível - cada nova ideia a define de maneira irrevogável. Foi nessa infeliz idade que li "A Náusea", de J. P. Sartre, e fui sentenciado a uma vida de pensamentos modorrentos. Pois, em determinado momento do romance, o protagonista conclui: "todo vivente nasce sem razão, prolonga-se por fraqueza e morre por acaso".

O impacto dessa ideia sobre mim não se bem ilustra com grande barulho, com bums ou pâns, mas com prolongado suspiro que nem sei se já cessou; capaz de ter-me acostumado a ele, de que faça parte do som ambiente de minha cabeça em ponto-morto. Essas doze palavras me foram tatuadas na retina. Inclusive, bom dizer, transcrevo-as apenas por estar convicto de que ninguém abaixo de dezoito anos leria estas linhas - em verdade, tampouco ninguém acima, mas deixem-me com meu público fictício - de outra forma, não seria tão irresponsável.

Retorno: tomei essa ideia por regra, regra que se dividiu em preocupante variedade de subnormas e quaseverdades, todo um melancólico ordenamento jurídico responsável, tão somente, a interpretar e dar sentido a cada fato e pensamento que me ocorria. Compartilho agora alguns deles. A princípio, não me preocupavam especialmente nascer sem razão e morrer por acaso; julgava que pouco podia fazer sobre as extremidades do percurso - uma existência em fraqueza, por outro lado, tornou-se pano de fundo dos meus dias. Não apenas dos maus momentos - a tristeza desses é evidente e redundante; mas, e principalmente, também dos bons. Passei a buscar com lupa, em cada vitória e glória diminuta, a parcela de fraqueza que as maculava. Não apenas nas minhas - se ao menos limitasse essa visão ao meu mundinho, teria poupado a mim e aos próximos algumas lamentáveis decepções - mas nas das pessoas mais queridas; escrevi em meu diário, à época, que me tornava farejador de frustrações, o que é uma péssima raça de cachorro para lugares fechados e abertos.

Tentei catar fraqueza no amor, imagine o infeliz! E tive sucesso. Não conseguia me decidir sobre o que era perna e o que era muleta. O que levava comigo e o que me era levado. Paranoia e sua prima insegurança são visitas ingratas para um casal. E o amor prolongou-se por fraqueza, mas não por acaso se desfez. Ainda hoje, se me lembro desses dias confusos, sinto doída compaixão pelo garoto que fui, pelos erros que não conseguiria corrigir. Gostaria de chegar junto e dizer-lhe que é difícil, mas não tanto; que a fraqueza do amor se desfaz a quatro mãos; que são um casal, mas são inteiros, e não as metades de um quebra-cabeças de duas peças. Paciência. Repito comigo essas palavras e guardo as estrelas. Algo virá.

Com o tempo, talvez por tornar-me um tanto - um pouco? - mais seguro em minhas circunstâncias, passei a brincar com a ideia, já que não poderia esquecê-la. E se houvesse quem nascesse por acaso, se prolongasse sem razão e morresse por fraqueza? Não me soava improvável; era até bastante verossímil. Não há acaso maior do que o novelo de probabilidades que precede a existência; uma vida sem razão não é algo tão diferente do que estatisticamente já ocorre; e um momento de fraqueza antes da extinção é preferível a algumas dezenas de anos. Ou, ainda, se seguimos a sequência, nascer por fraqueza, prolongar-se por acaso e morrer sem razão? Também não soa tão absurdo. Morrer por nascer, sem razão porque ao acaso, fraquejado por prolongar-se? Tampouco. Em verdade, pergunto-me se há grandes diferenças entre essas alternativas, ou entre todas as alternativas possíveis. Arriscaria dizer que não, mas não me chamo Sartre, sou apenas Daniel e prolongo-me por fraqueza, sem razão. Como neste texto.

Recentemente, já que acaso não houve que me matasse, decidi barganhar com a noção. Desisti de desmenti-la - creio que nunca realmente tentei - mas há brechas a serem exploradas. Penso que, se nunca deixar de nascer, posso pular ao acaso diretamente do sem sentido, dispensando uma existência de fraqueza. Parece-me razoável solução. Como fazê-lo? Não saberia exatamente. Mas tento, juro que tento. Tento que meus dias se pintem de novas cores, ou ao menos de um novo tom de bege; se as rimas não forem raras, que sejam ordinárias, que nem rimem, mas que haja qualquer poesia; que o suspiro em minha cabeça, já que não cessa, ao menos alcance notas mais altas, que antecipe um gran finale, que me surpreenda enfim com grito histérico ou súbito silêncio. Juro que tento, nem sempre consigo; mas há dias em que me vem um gosto danado de vida nova.

Andava em paz com a tragédia existencialista dos franceses, com a falta de sentido da existência, com o silêncio de deus; meus problemas hoje têm rosto, têm perguntas de múltipla escolha, têm endereço. Foi doce poder olhar para mim, alguns anos atrás, e identificar quais ideias me conduziram e me trouxeram até aqui. No final das contas, poderia ter sido pior - essa constatação, se não é gloriosa, tem suas virtudes - e eu andava mais leve em face de questões tão prodigamente inúteis. Até que no almoço deste domingo ouvi a irrefutável verdade de que "o destino de toda célula é o câncer ou a senescência", e aceito sugestões de psicanalistas competentes que caibam no orçamento de um servidor público.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Talvez andorinha.

Em Campinas há uma praça que se chama Imprensa Fluminense; julgo, contudo, mais bonito e preciso o apelido Centro de Convivência. Nas primeiras horas da manhã de uma quarta-feira, lá convivem andorinhas e mendigos. Em um domingo ensolarado como este, ela é tomada por famílias e feirantes. E por mim; que eu não me esqueça de mim, embora não seja família, nem mendigo, nem feirante. Talvez andorinha.

Que beleza têm domingos ensolarados com gente na rua. Casais, crianças, cachorros, sorvete, saxofone, senhores e senhoras entretidos com as novidades de dêcenios passados. É quase impossível errar o quadro com essas tintas. Mas a que preço? Onde estão os tristes? Talvez em casa, temendo macular de azul as cores quentes da praça. Talvez imaginem que soaria alarme ao primeiro passo que arriscassem entre os demais, e em poucos minutos restaria esvaziado o centro e a convivência, reservados ao convívio dos tristes com suas misérias. Não sei. É daquelas verdades injustas o quão obscena é a tristeza sob o sol.

Reflito que, na perspectiva desta praça, os vivos são minoria. É o que acontece quando se vive demais. Já é extinta a maior parte de quem a frequentou; as primeiras crianças aqui trazidas pelos pais já adequadamente percorreram o trajeto inteiro da existência, até não haver mais trajeto algum. Para esta praça, não sou mais do que o breve descanso antes da saudade de mim; e a saudade, ela mesma, pouco dura antes que suceda silenciosa indiferença. Não concordo inteiramente com o niilismo das praças, mas juro que faz pensar.

E penso. Penso que serei família, serei casal, serei criança, serei triste. Com alguma sorte, serei senhor de idade. Talvez até andorinha eu seja. Se Campinas não for testemunha de minha alegria, há outras praças no mundo, e o mundo mesmo é também praça; que eu não espere domingos de sol para juntar-me à multidão. Há qualquer coisa neste jardim que me sugere o absurdo da vida. Fecho os olhos e peço por um pouco de beleza.

Um são bernardo caminha despreocupado pela praça; o peso do cão deixa incontestáveis marcas na grama. Desconfio que levará um tempo antes que a grama esqueça as pegadas desse são bernardo.

sábado, 23 de julho de 2016

A frequência dos cometas.

É sábado à tarde, e tento estudar. Logo de início, contudo, fica evidente a ausência de concerto de agendas entre mim e a vizinha de baixo; é sábado à tarde, e ela tenta dar um churrasco. Apenas um de nós terá sucesso na empreitada, e não culpo quem, apesar de muito bem me querer, decidir não apostar em minhas chances. Longe de mim impedir a fortuna de amigos com sentimentalismo.

Mesmo para um churrasco de sábado à tarde, pondero comigo que o volume da conversa está excessivamente alto. Não digo que todas, mas entendo frases o suficiente para que possa completar as lacunas com suposições razoáveis e compreender, assim, o sentido geral da conversa; mais do que isso, permito-me opinar como se lá estivesse e, mesmo, julgar os demais participantes dessa comunicação remota.

Por algum tempo, concluía serem apenas garotas que compunham o resto do grupo do qual agora compulsoriamente faço parte; demorou um pouco antes que eu ouvisse o grave acanhado da voz de um segundo homem, o bastante para entender que estava em companhia de mulheres eloquentes e altivas. Aproveito a deixa do companheiro e contento-me em ouvi-las, mais do que falar; raras vezes é conselho mal dado.

Não faço objeções à maioria de minhas interlocutoras; soam-me pessoas agradáveis, decididas a bem desfrutar o dia de folga em companhia de amigas queridas e de mim, eminência parda disposta a anonimamente manter o bom espírito da conversa. Discordamos em pontos-chave de assuntos relevantes, diga-se; particularmente não acho que o fechamento de fronteiras contribua para a prevenção de atos terroristas nas Olimpíadas, por exemplo. Felizmente, nada que estremeça a solidez da relação. Há, contudo, uma entre elas que me aborrece sobremaneira.

Minha antagonista é o tipo de indivíduo que parece crer que haveria irremediável silêncio se sua própria voz parasse de soar apenas por um instante. Não apenas fala mais e mais alto do que as demais, mas evidentemente acredita que o faz pelo bem da coletividade; pensa tratar-se de martírio, quando em verdade é genocídio. Tento contemporizar com alguma autocrítica; bem sei que tendo, em presença de amigos e vinho, a empolgar-me em argumentos até que os vença ou esgote a todos ao ponto de que não possam fazer nada que não fatalmente concordar com qualquer bobagem que eu sustente. Mas se eu um dia for culpado do crime de que agora sou vítima, não hesitem em entregar-me às autoridades.

Mantinha o pensamento em semelhantes rabugices, quando a genocida do andar de baixo menciona um carbonara que faria - empurrando-me desavisado à memória de um fim de tarde que vivi, em circunstâncias tão diferentes das que hoje me circundam. Tão bem comi, tão feliz bebi; falávamos baixinho, pois as palavras se bastam quando bem faladas, e há companhias com quem mesmo o silêncio é eloquente. Curioso; basta um motivo e, de repente, saudade tem gosto de carbonara e vinho tinto.

Tão singela observação foi recebida por um criado-mudo atônito e bem intencionado; mudo, ainda assim. Quem engano? Que feio é sentir forma tão simplória de inveja; deixo as meninas com seus genocídios, bem possível que a única vítima seja eu. O som que chega à minha casa nunca desceria ao churrasco delas, por mais que eu gritasse. Há assimétrica distância entre nós, cuja medida sou eu e meus poréns. Deixo-as. Mudo-me para o quarto, respiro quatro vezes, recomeço a leitura. Haverá tardes de sábado em minha vida, não duvido. Que eu não me desespere com a platitude das segundas-feiras.

Vejam só, e não é que há voz sensata que se esconde em canto qualquer desta cabeçorra? Feliz constatação. O problema é que ela se manifesta com a frequência dos cometas. Sigamos.