sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Aqui há vida.

Já há bons minutos, eu e o apartamento nos encaramos. Recém-chegado, recorro à cortesia, deixo que fale primeiro, um alô, bem-vindo, faz-me casa, faz-me seu. Percebo, em seu silêncio, o desconcerto de expectativas frustradas, e entendo-o. Imagino que ideias não teve, durante seus meses de porta fechada, sobre o tipo de gente que o ocuparia, assim que decidissem residir na cidade de Campinas. Tem jeitos festivos, este imóvel. Sua janela é ampla e dá para outras tantas janelas e varandas, que anunciam orgulhosas, em luzes dispersas, a gente toda que as preenche. Estou certo de que ansiava pelo momento em que, numa madrugada de terça-feira, gritaria a seus pares, a pleno brilho, que Sim, meus caros, aqui há vida, aqui há vida. Se pudesse escolher, acolheria casal jovem e sem filhos, já que nele há único quarto, com amigos que insistissem por uma última música, uma última taça, em mais uma noite.

Por isso, insisto que das paredes ouvi suspiro no momento em que entrei sozinho, carregando três malas e um carrinho de livros, e encarei resignado os cômodos em que viveria. Eu entendo a decepção, digníssimo imóvel. Não tem família, esse infeliz, que o ajude na mudança e estoure o espumante, brindando às alegrias e dificuldades do primeiro lar? É assim tão miserável que não tem pelo menos uns três amigos que receba em open-house, que derrubem o vinho e saiam sem oferecer, ao menos, a gentileza de um esfregão? E que expressão apática é essa no rosto, onde deveria haver a alegria arrebatada de um jovem independente?

Bem, que posso dizer? Família tenho, próspera e querida; vivem suas escolhas, buscam a felicidade em cantos espalhados, e amo-os por essa razão e por outras. Bebida não falta que brindem por mim, e eu por eles. Amigos, você não acreditaria em como os tenho. Indivíduos que me dão o privilégio de carregar um tanto de mim em suas vidas. Sem eles, já nem bem seria. Estão por aí, pisam o mundo, alguns acompanho atento, de outros há tempos não ouço. Mas não, aqui não os tenho. E você cobra de mim alegria? Pois bem, saiba que também a cobro, não duvide. Não me tenha por tipo lacrimoso, dado a melancolias gratuitas. Sou grato; tenho dinheiro que me compra os dias, tenho objetivos que me sustentam o ano e, oras, tenho você, um apartamento simpático onde moro com recursos meus. Mas não se espante com certo enfado, você há de notar que ando sozinho; trouxe comigo, mais do que malas e livros, saudades e receios. Receio de não conseguir, saudade de quem não tenho perto.

Nesse instante, os armários embutidos da sala rangem: “e quem não?”. Bem verdade, mas vá pastar.

Se estamos sendo sinceros, saiba que tampouco você me satisfaz plenamente. Tive sonhos, imagine, sobre o lugar onde primeiro fincaria pés, bateria estaca e chamaria casa. As pessoas todas cuja falta você notou, saiba que eu a noto mais. Culpo-o, em partes; culpo-o por estar em cidade que não escolhi, ocupado por objetos que não comprei, vazio de companhias que não tenho. Concordo com você; tão melhor seria tê-lo cheio, vigoroso no ruído das conversas exaltadas. Faltou cadeira! Sento no chão, a casa é de vocês. Tem vinho? Tanto quanto há sede, beba contente, minha amiga. Em conversas distantes, onde estivesse ausente, vez por outra seria dito “É sexta-feira, vamos lá em Daniel”. Mas mal o conheço, seria estranho? De forma alguma; venham, venham todos, venham sempre, que solidão é bicho pra se matar como a César, a quarenta mãos. Que injusto que é culpar vivente por ser quem quer que ele seja. Reconheço que sim, mas você me pegou emotivo.

Caro apartamento, certo é que necessitamos trégua. Eu o quero casa, você me quer vida. De minha parte, proponho meus termos. Sim, a maior parte dos meus dias será cozida em melancólico banho-maria; não há emoção aparente em livros e questões. Haverá momentos, sei que haverá, em que sucumbirei sob a pasmaceira do desânimo; quando for o caso, peço compreensão, favor não queimar a resistência do chuveiro. A louça, lavo depois. Por outro lado, ofereço minhas garantias. Não há de faltar, dia que seja, boa música que receba a manhã e se despeça da noite. A cozinha será minha aventura; a cada mês, prometo nova habilidade que lhe perfumará o teto. Na maior parte das semanas, seremos eu, você e nossos diálogos. Mas, quando houver companhia, eu lhe juro, será recebida de garrafa aberta, e, se houver quem toque, acordaremos os vizinhos com o violão desafinado. Aqui há vida, aqui há vida.

De você, só lhe peço paciência – essa também peço de mim. Aos poucos, desatentos, faremos de nós saudade a decorar outras paredes que me recebam.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Gabriel e a tartaruga.

Cantava baixinho London, London no ônibus quando perguntaram sobre a mancha que tenho na mão, se eu a tenho desde que nasci. Sentava ao meu lado, era mulher de seus cinquenta anos. A mancha em questão é vermelha e, quão mais velho for quem a veja, menos se parece com uma tartaruga - para minhas primas, ela chama-se Dani e esconde-se dentro do casco quando esfregamos o dedo sobre ela. E sim, senhora, tenho-a desde que apareci em vida. Perguntou-me então se tinha outras semelhantes pelo braço - São Paulo fria, manga longa. Respondi que não e me preparava para jurar até a morte que era saudável, que mesmo se fosse doença, a probabilidade seria de não ser contagiosa, mas que ela poderia mudar de lugar se preferisse; eu não me ofenderia. Visitaria a dermatologista na mesma semana, pedindo que me salvasse, mas não me ofenderia.

Restou sentada minha companhia. Disse-me que seu filho Gabriel tinha manchas iguais, e em maior número, espalhadas pelo braço. Diz a Gabriel que elas o fazem especial, contou-me, sem deixar de olhar minha tartaruga. Sua expressão não revelava se ficara feliz por encontrar outra pessoa especial, ou decepcionada por minha existência fazer com que Gabriel não mais o seja; há os dois tipos de gente, este com frequência tristemente maior do que a daquele. Disse, enfim, que ele também nasceu com um buraquinho na barriga, mas que deram ponto e se resolveu. Buraco não tenho outros que não aqueles com que normalmente se nasce; se mais houver, escapam aos olhos e são coisa minha. Cessaram as semelhanças, cessou a viagem, ela chamou o ponto e foi aonde quer que as pessoas vão depois que descem do ônibus.

Mas o pensamento em Gabriel demorou-se ainda comigo. Nada sei sobre ele além da forma como a vida decidiu marcá-lo de nascença; como ela o seguirá marcando, até que a margem oposta ao nascimento chegue, e ele abandone seu fluxo para seguir outros, ou seguir fluxo nenhum, não desconfio; contudo ele existe, tem nome e, pareceu-me, é criança ainda. Uma criança com uma mancha no braço, uma mãe que a chama especial, e, de repente, é motivo suficiente para que eu lhes tenha compaixão. Trouxe algum descanso à minha tarde o pensamento de um jantar, uma conversa no fim do dia, o comentário sobre um rapaz com uma mancha igual a sua, só que apenas uma; você tem mais e você é mais, meu filho, e estarei aqui para lhe dizer o mesmo amanhã e depois. É tudo que posso fazer por eles antes que os esqueça e siga pelo resto dos meus dias, como se eles não existissem.

A probabilidade é de que nunca conheça Gabriel. Por estas linhas lhe digo então que a vida daqueles com mancha vermelha no braço não vai fácil. Por algum motivo, há sempre quem exija mais de nós; em algum momento, ser manchado deixou de ser o bastante, e há um mundo de obrigações a serem atendidas até que se esgotem nossos anos. Haverá dias, acredite, em que parecerá não ser importante qualquer coisa que nos faça diferentes. Nesses dias, respire e lembre de sua mãe; lembre que existem aqueles para quem somos especiais tão somente por nascermos, como quer que tenhamos nascido. Não digo que seja solução, mas ajuda; pela tartaruga que carrego no braço, juro que ajuda.