quinta-feira, 13 de agosto de 2015
sexta-feira, 17 de julho de 2015
Gabriel e a tartaruga.
Cantava baixinho London, London no ônibus quando perguntaram sobre a mancha que tenho na mão, se eu a tenho desde que nasci. Sentava ao meu lado, era mulher de seus cinquenta anos. A mancha em questão é vermelha e, quão mais velho for quem a veja, menos se parece com uma tartaruga - para minhas primas, ela chama-se Dani e esconde-se dentro do casco quando esfregamos o dedo sobre ela. E sim, senhora, tenho-a desde que apareci em vida. Perguntou-me então se tinha outras semelhantes pelo braço - São Paulo fria, manga longa. Respondi que não e me preparava para jurar até a morte que era saudável, que mesmo se fosse doença, a probabilidade seria de não ser contagiosa, mas que ela poderia mudar de lugar se preferisse; eu não me ofenderia. Visitaria a dermatologista na mesma semana, pedindo que me salvasse, mas não me ofenderia.
Restou sentada minha companhia. Disse-me que seu filho Gabriel tinha manchas iguais, e em maior número, espalhadas pelo braço. Diz a Gabriel que elas o fazem especial, contou-me, sem deixar de olhar minha tartaruga. Sua expressão não revelava se ficara feliz por encontrar outra pessoa especial, ou decepcionada por minha existência fazer com que Gabriel não mais o seja; há os dois tipos de gente, este com frequência tristemente maior do que a daquele. Disse, enfim, que ele também nasceu com um buraquinho na barriga, mas que deram ponto e se resolveu. Buraco não tenho outros que não aqueles com que normalmente se nasce; se mais houver, escapam aos olhos e são coisa minha. Cessaram as semelhanças, cessou a viagem, ela chamou o ponto e foi aonde quer que as pessoas vão depois que descem do ônibus.
Mas o pensamento em Gabriel demorou-se ainda comigo. Nada sei sobre ele além da forma como a vida decidiu marcá-lo de nascença; como ela o seguirá marcando, até que a margem oposta ao nascimento chegue, e ele abandone seu fluxo para seguir outros, ou seguir fluxo nenhum, não desconfio; contudo ele existe, tem nome e, pareceu-me, é criança ainda. Uma criança com uma mancha no braço, uma mãe que a chama especial, e, de repente, é motivo suficiente para que eu lhes tenha compaixão. Trouxe algum descanso à minha tarde o pensamento de um jantar, uma conversa no fim do dia, o comentário sobre um rapaz com uma mancha igual a sua, só que apenas uma; você tem mais e você é mais, meu filho, e estarei aqui para lhe dizer o mesmo amanhã e depois. É tudo que posso fazer por eles antes que os esqueça e siga pelo resto dos meus dias, como se eles não existissem.
A probabilidade é de que nunca conheça Gabriel. Por estas linhas lhe digo então que a vida daqueles com mancha vermelha no braço não vai fácil. Por algum motivo, há sempre quem exija mais de nós; em algum momento, ser manchado deixou de ser o bastante, e há um mundo de obrigações a serem atendidas até que se esgotem nossos anos. Haverá dias, acredite, em que parecerá não ser importante qualquer coisa que nos faça diferentes. Nesses dias, respire e lembre de sua mãe; lembre que existem aqueles para quem somos especiais tão somente por nascermos, como quer que tenhamos nascido. Não digo que seja solução, mas ajuda; pela tartaruga que carrego no braço, juro que ajuda.
Mas o pensamento em Gabriel demorou-se ainda comigo. Nada sei sobre ele além da forma como a vida decidiu marcá-lo de nascença; como ela o seguirá marcando, até que a margem oposta ao nascimento chegue, e ele abandone seu fluxo para seguir outros, ou seguir fluxo nenhum, não desconfio; contudo ele existe, tem nome e, pareceu-me, é criança ainda. Uma criança com uma mancha no braço, uma mãe que a chama especial, e, de repente, é motivo suficiente para que eu lhes tenha compaixão. Trouxe algum descanso à minha tarde o pensamento de um jantar, uma conversa no fim do dia, o comentário sobre um rapaz com uma mancha igual a sua, só que apenas uma; você tem mais e você é mais, meu filho, e estarei aqui para lhe dizer o mesmo amanhã e depois. É tudo que posso fazer por eles antes que os esqueça e siga pelo resto dos meus dias, como se eles não existissem.
A probabilidade é de que nunca conheça Gabriel. Por estas linhas lhe digo então que a vida daqueles com mancha vermelha no braço não vai fácil. Por algum motivo, há sempre quem exija mais de nós; em algum momento, ser manchado deixou de ser o bastante, e há um mundo de obrigações a serem atendidas até que se esgotem nossos anos. Haverá dias, acredite, em que parecerá não ser importante qualquer coisa que nos faça diferentes. Nesses dias, respire e lembre de sua mãe; lembre que existem aqueles para quem somos especiais tão somente por nascermos, como quer que tenhamos nascido. Não digo que seja solução, mas ajuda; pela tartaruga que carrego no braço, juro que ajuda.
sexta-feira, 19 de junho de 2015
Guardando estrelas.
Aprendi a singela imagem do cão que guardava as estrelas, em livro de mesmo nome. O animal, ao encarar desejoso o astro inalcançável, ilustra a vontade do impossível; não a entendo, contudo, de forma triste. Representa bem a subestimada ideia de que, mesmo no fracasso, resta a beleza de um céu estrelado.
Penso nas estrelas que guardei e que aprendi a perder. A realidade nos dá descanso de alguns anos, depois de nascermos, antes de tombar sobre nós desavisada; até então, vivemos infância sem noite, e o sol está tão perto quanto o rosto de nossa mãe. Não tarda, e percebemos a verdade cansada de que não se consegue tudo o que se quer, e mesmo o que se consegue nos vem mutilado. Era mais quando o quisemos, é menos agora que o temos.
Crescemos e aprendemos. Pessoas são pessoas, e estrelas são estrelas. Elas, combustão inatingível de gases, queimando sozinhas até o derradeiro estouro; nós, reação de possibilidades, inalcançáveis uns aos outros, fazendo luz qualquer que nos distingua, até cessarmos, em inaudível suspiro. Em comum, apenas a indiferença de um mesmo céu.
Confesso, contra tudo o que a razão aconselha, que não desisti de guardá-las, ainda que, com frequência sempre maior, me descuide e as perca de vista. A vida dos adultos é coisa trabalhosa; se lhe permitimos que siga abandonada, logo embrutece, ganha vícios de objetividade. Busca apenas o que é útil, e utilidade é um perigo: se consumida sem ressalvas, torna iguais as vidas e as encurta. Guardo estrelas, e aconselho a todos que as guardem - não raro, quando diante de nós parecer haver nada, que não impossibilidade, encará-las será alento, e alento será tudo o que precisamos.
Haverá dias brutos, sei que haverá. Dias em que esquecerei de olhar o céu, em que a vida me pesará a ponto de eu ter por suficiente o chão, e sua utilidade de me impedir que caia. Nesse dia, renunciarei a qualquer coisa que não possa tocar, a qualquer desejo que não for realizável, e acharei por bem assim ficar. Se assim me vir, meu amigo, peço que não desista de mim. Coisa certa é que o céu não esquece de nós; me conte de seus sonhos e me lembre dos meus. Se, ainda assim, me mantiver duro e pragmático, tenha paciência e me faça mais um favor. Peço, por gentileza, que guarde uma estrela pra mim.
Crescemos e aprendemos. Pessoas são pessoas, e estrelas são estrelas. Elas, combustão inatingível de gases, queimando sozinhas até o derradeiro estouro; nós, reação de possibilidades, inalcançáveis uns aos outros, fazendo luz qualquer que nos distingua, até cessarmos, em inaudível suspiro. Em comum, apenas a indiferença de um mesmo céu.
Confesso, contra tudo o que a razão aconselha, que não desisti de guardá-las, ainda que, com frequência sempre maior, me descuide e as perca de vista. A vida dos adultos é coisa trabalhosa; se lhe permitimos que siga abandonada, logo embrutece, ganha vícios de objetividade. Busca apenas o que é útil, e utilidade é um perigo: se consumida sem ressalvas, torna iguais as vidas e as encurta. Guardo estrelas, e aconselho a todos que as guardem - não raro, quando diante de nós parecer haver nada, que não impossibilidade, encará-las será alento, e alento será tudo o que precisamos.
Haverá dias brutos, sei que haverá. Dias em que esquecerei de olhar o céu, em que a vida me pesará a ponto de eu ter por suficiente o chão, e sua utilidade de me impedir que caia. Nesse dia, renunciarei a qualquer coisa que não possa tocar, a qualquer desejo que não for realizável, e acharei por bem assim ficar. Se assim me vir, meu amigo, peço que não desista de mim. Coisa certa é que o céu não esquece de nós; me conte de seus sonhos e me lembre dos meus. Se, ainda assim, me mantiver duro e pragmático, tenha paciência e me faça mais um favor. Peço, por gentileza, que guarde uma estrela pra mim.
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